sábado, 29 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo

2012 foi o melhor ano de minha vida.
Aprendi a ser gente, enfim.
O câncer me fez uma pessoa melhor e pude compreender a grandeza humana, na prática.
Foram e ainda são tantos os afagos, os gestos, as palavras e ações que não posso sequer pensar em enumerar.
Não existe o "muito obrigado" a dizer, mas gratidão, eterna.
Que 2013 nos traga mais sabedoria, compreensão, paciência e amor, principalmente o amor.
Feliz Ano Novo!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Viva a Vida: adeus câncer (estou zerado)

Viver a Vida, sim, mas é melhor ao lado de gente que gosta da gente, que vibra com nossos acertos e torce pela nossa saúde.
Melhor ainda é ter ao seu lado um bando de gente boa a dar apoio, estímulo e coragem para não desistir, nunca.
Viva a Vida, agora com muito mais acertos que erros, espero, e muito mais disposição, confio.
A todos, o meu mais sincero agradecimento pela vibração, pelas palmas,

apertos de mão e inúmeros, incontáveis, acho, abraços e beijos pelo câncer zerado (não se pode falar ainda em cura, só em cinco anos, com as revisões a cada quatro meses).
Sorte não é palavra que se usa em Medicina, diz o meu querido oncologista Bartolomeu Melo, do Real Hospital Português e do Hospital Oswaldo Cruz. Ele tem razão. Um câncer se combate com amor, carinho e muita amizade. E eu tive tudo isso por onde passei, com as pessoas com quem conversei sobre a doença e com os pacientes, enfermeiros, técnicos em radioterapia e pessoal da limpeza do Hospital Real Português.
Sem eles, o combate seria mais difícil, dolorido, danado de ruim.
Entre todos os que me ajudaram a caminhar, a aceitar e a não cair, está uma mulher que ainda não conheço pessoalmente, mas parece que a tenho ao meu lado desde sempre.
Uma mulher a quem chamo de "minha linda" nos twitter da vida, no Facebook e no Instagram.
A Naire Valadares, uma vencedora na vida e que encarou um câncer com muita coragem e humor, os meus mais profundos desejos de muita paz, leais amigos e muita alegria.
Com ela aprendi a descartar o "por que bem eu, meu Deus", para encarar o "porque não?".
Seu blog me orienta, guia e conduz, Naire Valadares.
Fiquei sabendo hoje (12-12-2012 às 15h32) que o câncer desapareceu da minha corda vocal direita. O primeiro diagnóstico antes da biópsia foi dado no dia 12-04-2012.
Agora, esperar pelas revisões durante cinco anos (revisões de quatro em quatro meses) para checar se o danado não quer voltar ou se voltou.
Vou esperar. Afinal, cinco anos a gente tira de letra, não é meu Deus?
Obrigado, Senhor! 
Foto tirada ao entrar na redação do Jornal do Commercio após saber o resultado. Surpreso e muito emocionado com a maior recepção ofertada pelos companheiros.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Força, corintiano!

Voltei a rezar, retornei às orações sentidas, aquelas que saem do fundo da alma e explodem em emoções. Hoje rezei pelo Mateus, aquele adolescente que foi meu parceiro na radioterapia e que luta contra um tumor maligno na área do pescoço/cabeça. Tão jovem, inteligente e corintiano. Os rins falharam depois de uma forte pneumonia, entrou em hemodiálise e a situação é grave, muito grave. Mas acho que Mateus é muito mais forte que eu (não sei é se terei forças para suportar a sua perda).

domingo, 18 de novembro de 2012

A dor que não passa

O livro Últimas palavras (Globo Livros), de Christopher Hitchens, é um murro no estômago do paciente de câncer.
O autor, que começou a escrevê-lo ao ser diagnosticado com um câncer no esôfago, morreu da doença.
Nele, o autor descreve a sua luta contra a doença e como se manteve fiel às suas convicções filosóficas e políticas. Ele foi um dos intelectuais mais influentes das últimas décadas nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde nasceu.
Polemista brilhante e intransigente defensor do ateísmo, foi um jovem de esquerda que se alinhou, na maduridade, aos conservadores republicanos. Foram sucesso de audiência e leitura seus embates com o ex-secretário de Estado (EUA) Henry Kissinger e até com Madre Teresa de Calcutá, já que achava que a religião era fonte de grande parte da tirania no mundo.
Morreu em 2011, um ano e meio depois de descobrir que tinha câncer.
Christopher Hitchens dizia: "O fato fascinante sobre estar mortalmente doente é que você passa bastante tempo se preparando para morrer com um bocadinho de estoicismo (e de provisões para os entes queridos), enquanto está simultânea e altamente interessado na questão da sobrevivência".
A clarividência sobre a doença por parte do paciente, no entanto, se torna até incômoda, agressiva e mal-educada (oras!) quando ele, afinal, vaticina: "Não estou lutando ou batalhando contra o câncer - ele está lutando contra mim".
Amém!



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A voz do dono

Retorno à Radio JC/CBN Recife apesar de a voz ainda nao ser a mesma, mas a saudade era grande apos um ano afastado dos comentãrios no final da tarde ao lado do radialista Aldo Vilela.

A volta ocorreu pela insistencia do Aldo Vilela que parece que leu meus pensamentos. Ele também ajudou o escritor Raimundo Carrero que teve um AVC quase perdeu a voz mas continua com seus comentarios preciosos sobre literatura na radio.

Amigos aparecem para nos defender proteger e incentivar.

Aldo Vilela é assim, nāo pode ver um amigo sofrer.

A voz do dono do titulo é a dele!

Minha bela

Volto a ler o turbantedanaire.blogspot.com.br e sou surpeendido com textos estupendos de viagem, revelações sentimentos e descrições que  me provocam risos e choros.

Naire Valadares me encanta pela sensibilidade, oraçāo direta e coraçāo sempre aberto para o mundo.

Caminho com ela pelas ruas de Lisboa, seus cantos e encantos, ruelas becos e praças. Que mais posso querer?


Naire tem conta no instagram -  nairevaladares. É por lá que vejo Lisboa atraves de suas fotos textos e uma multidāo de amigos que comentam seus roteiros diãrios. Maravilhosa viagem pela internet.

Naire é uma vencedora. Derrotou com sua alegria carinho amor e esperança a surpresa avassaladora de um cāncer.

Ela é uma guerreira e eu a chamo de minha bela.

Embalo vital

Penso que o câncer apareceu pra me dar um freio na minha vida, para depois me dar um empurrão em direçāo a uma nova vida.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Anjos da Guarda


Quando menino minha mãe me ensinou a rezar o "Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador. Se a ti me confiou a piedade Divina, Sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumine. Amém".
Durante anos, antes de dormir, apelei ao meu Anjo da Guarda por uma noite boa e saúde para o resto da vida. Sempre acreditei na existência dele.

Hoje, vejo que os santos, assim como os anjos, não estão mais nos altares, eles cruzam conosco nas ruas.

O diagnóstico de câncer me deu a certeza de que tenho mais que um Anjo da Guarda - uma legião deles à minha volta. Se o diagnóstico me fez dramatizar, a princípio, a doença ("por que bem eu, meu Deus?"), a chegada paulatina dos meus Anjos me fez ver a tragédia por um outro prisma ("Por que não?") e aceitar o câncer com resignação, disposição e alegria.

São muitos, hoje, os meus Anjos da Guarda.

Eles me cercam e amparam desde o dia 12 de abril de 2012, quando o diagnóstico de um tumor ("tem mais chance de ser maligno", garantiu o otorrinolaringologista) puxou literalmente o meu tapete, me obrigou a ver que a vida como passageira e abriu uma porta para uma experiência que jamais imaginei vivenciar - julgava inatingível por qualquer doença. Total falta de conhecimento da vida. Estava preocupado com a minha profissão e o trabalho para pensar em mim.

Os meus Anjos da Guarda, pasmem!, têm nomes, sobrenomes e profissões. A maioria deles está no Real Hospital Português, no Recife, um mundo de doenças e de curas.

Outros, como o médico e cirurgião João Veiga, entraram na minha vida bem antes da doença e foi ele, dr. João Veiga, quem abriu o Portal dos Anjos da Guarda que me cerca, apoia, me dá força e diagnósticos precisos que me fazem ir em frente (por ordem de chegada em minha vida):

Os médicos Sérgio Azevedo (cardiologista que me deixou apto para a biópsia), Bartolomeu Melo (cirurgião de tórax e cabeça, que fez a biópsia e através do qual conheci o Seu Lula, pequeno e idoso trabalhador rural da cana de açúcar queimado pelo sol que ficou curado de um câncer na corda vocal, igual ao meu) e Jonathan Melo (oncologista que acompanhou as 33 sessões de radioterapia e me ensinou muitas coisas para eu passar a conviver melhor com a doença e com os demais que me cercam).

Deles recebi muita atenção, tratamento digno e carinho e compreensão. Através deles pude constatar o grau de profissionalismo no Real Hospital Português, o que me emociona e me provoca admiração.

Outros profissionais, porém, estiveram muito mais próximos de mim no Real Hospital Português durante o tratamento, quando descobri que não são apenas profissionais capazes e dedicados, mas seres humanos incansáveis, que estão sempre dispostos a dar apoio, conforto e estímulo aos pacientes de câncer, sejam eles quem for. Os que se apresentam com carteirinha de plano particular ou através do SUS.

Sou testemunha de cenas inesquecíveis de pura bondade humana e fui beneficiado pela atenção e carinho desses profissionais. Assim como os pacientes da radioterapia que todas as manhãs recebem um aceno, um aperto de mão, uma palavra amiga, um estímulo e aquele sorriso quando a aparência e a disposição, as nossas, já não são das melhores por causa da violência da quimioterapia, dos remédios e daquele desânimo que muitas vezes toma conta da gente quando a voz some e tudo parece não dar certo.

No meu caso, a vida me privou por um bom tempo da minha liberdade de expressão.

A eles, então, as minhas mais doces lembranças:

Mariluce, Jodielson, Maria, Sérgio, Fernanda e Manuela (técnicos que merecem o maior respeito pelo trabalho que fazem e pelos cuidados com o paciente).
Tatiana (enfermeira que me ensinou a cuidar melhor de mim).
Fátima, Glauce, Cleine, Nevinha e Dona Carminha (da recepção onde ouvi sempre com muito prazer e alegria aquele diário e sonoro "Bom-dia, Seu Paulo").
Lúcia e Simone (da limpeza, das quais tive sempre uma palavra de estímulo).

Não conheço ninguém que sente falta da radioterapia e quimioterapia (que não experimentei, graças a Deus), nem dos remédios, os enjoos, as dores no corpo e aquele desânimo que toma conta da gente, muitas vezes. Mas confesso que sinto, sim, falta, apesar da máscara que me prendia à mesa e me fazia respirar apenas pelo nariz, disparava o coração e forçava a imobilidade numa mesa gelada, em uma sala gelada (o que era bom) e envolto por um aparelho imenso.

Sempre soube quando a sessão iniciava e terminava pelo ruído da máquina, mas só relaxava e voltava a respirar normalmente quando a porta daquela sala se abria (que maravilhoso e mágico ruído aquele). E, ainda do lado de fora da sala, uma voz me garantia, com convicção e certeza: "Acabou, meu querido, acabou".

Era a Mariluce. Sempre a doce e a atenta Mariluce que retornava à sala com seu enorme e generoso sorriso para retirar aquela máscara e me libertar daquela imobilidade que durava um minuto, mas parecia não terminar nunca. Sim, sinto imensa falta daquele aviso da Mariluce que me fazia renascer.

Na radioterapia do Real Hospital Português aprendi a melhor lição de minha vida ao conviver com tantos pacientes e conhecer histórias, dramas, dores, perdas e curas. Aos 64 anos, próximo da aposentadoria (2013) e hoje, por certo, um ser humano muito melhor. Ninguém sai ileso de um câncer sem mudar o seu jeito de ser. É o preço do pedágio para continuar vivo.

A lição? Ela é bem simples: o câncer odeia o amor, o carinho e a alegria. Meus Anjos da Guardam sabem muito bem e me deram tudo isso.

A eles, o meu mais profundo e sincero agradecimento.

Ao Real Hospital Português, a minha maior surpresa. Costumo dizer, em tom de brincadeira, quando quero descrever o meu entusiasmo pelo hospital, que o RHP é tão bom que jamais encontrei um papel no chão em suas dependências, por onde tive a sorte de cruzar com seres humanos de primeira categoria.

Paulo Sérgio Scarpa
Recife - Setembro 2012

domingo, 9 de setembro de 2012

Cenas da radioterapia

Sala de espera da radioterapia do Real Hospital Português (duas fotos), no Recife, onde aguardei a vez ouvindo a Rádio JC/CBN, anotando trechos para o blog ou enviando twitters para irmãos e amigos.
Calendário marcado com os dias das radioterapias realizadas: expectativa constante durante quase três meses para completar as 33 sessões (uma foto) determinadas pelo médico.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Ouvindo Clarice

Clarice Lispector mexe comigo como se eu fosse um adolescente.

Tudo que ela escrevou serve para mim.
 
"Hoje acordei pra viver, levantar e seguir em frente.
 
"O tempo é que mostra o que realmente valeu a pena, o tempo nos ensina a esperar, o tempo apaga o efêmero e acaba com a dúvida".
 
"Em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã."
 
"As pessoas, de muitas maneiras estranhas, tortuosas, piradas, no final das contas só querem amar e ser felizes."
 
"E eu digo sempre no final de cada conversa: Te cuida, meu bem. Com vontade de dizer: Me cuida, por favor, pois meu eu está em você."
 
"Quando você tem a capacidade de não falar, não ligar e não se importar, está aprendendo o que é ser forte."
 
E com o câncer, fiz como ela aconselhou:
 
"Eu comecei minha faxina. Tudo o que não serve mais (sentimentos, momentos, pessoas) eu coloquei dentro de uma caixa. E joguei fora."
 
 

Despertar generoso

Acordei hoje com a voz tão boa que até esqueci que estou com câncer.
 
A voz não está totalmente boa, mas antes do câncer também não era boa (hehehehehe).
 
Como é bom a gente falar e ser compreendido, já estava cansado de fazer mímica.
 
O feriado começou bem para mim.
 
Que despertar generoso, meu Deus!
 
PS1: dia 14 tenho médico no Real Hospital Português. O dr. Jonathan Melo vai dizer como estou e o que devo fazer. E me enviar ao dr. Bartolomeu Melo, que cuida de mim e fez a biópsia, para iniciar as revisões.
 
Será a primeira consulta médica após o término da radioterapia, no dia 1º de agosto passado.
 
Não estou contando vantagem nem fazendo festa antes do tempo, mas me sinto preparado para o resultado, seja ele qual for.
 
PS2: Tenho trabalhado tanto que nem tempo tenho mais de pensar no câncer, a não ser quando alguém pergunta como estou ou se interessa pela rouquidão aconselhando algum remédio caseiro (aí eu conto, nunca omiti o câncer nem escondi de ninguém a doença)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Curtir a vida

 "A vida é curta, rápida e dolorosa demais. Uma das necessidades que tenho é relacionar-me com as pessoas que admiro. conhecê-las e criar uma relação de igual para igual com elas".
 
O pensamento é do cineasta português Miguel Gonçalves Mendes, 33 anos, que passou quatro anos ao  lado do escritor José Saramago, morto em 2010, e de Pilar del Río, sua mulher. Desse encontro nasceu o documentário  José e Pilar , uma obra delicada, sensível e amarga que acabei de ver em vídeo. A frase acima está na Revista Cultura, em uma entrevista dada pelo cineasta no momento em que lança no Brasil o livro José e Pilar: conversas inéditas, um apanhado sobre os bate-papos e as centenas de horas gravadas que ficaram fora do filme.
 
Se eu tivesse tido a sabedoria de Miguel Gonçalves Mendes, que teve a sorte de escolher uma profissão que lhe deu oportunidade de ter grandes amizades. Eu não tive esse privilégio pelas cirscuntâncias profissionais (a tal da imparcialidade e distanciamento brechtiano que se exigia de nós - sequer fui filiado a um partido político - e que as novas gerações enterraram) e por ter colocado o trabalho, sempre, acima de qualquer compromisso particular desde os 17 anos, quando comecei, como revisor, a trabalhar em um jornal em São Paulo.
 
Curtir a vida. Melhor seria com quem admiramos.
 
PS: Nunca fui filiado a partido político, mas confesso que tive uma enorme e incontrolável paixão política, que nasceu em 1978, em São Bernardo do Campo, e morreu em 2006, infelizmente.  

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Aguardando o resultado

Retorno ao blog depois de algum tempo. Não tinha nada a dizer, mesmo, após o término da radioterapia.

Ainda aguardo o resultado dos efeitos da rádio no câncer na corda vocal e a espera muitas vezes me angustia, quando me lembro que estou com a doença.

Não fico pensando nela o dia inteiro, mas quando a voz falha ou fica mais fraca, lá vem o danadinho encher a minha cabeça. Será que está tudo bem? O que vai acontecer comigo?

Preciso ficar mais otimista já que o tratamento foi melhor que o esperado. Logo, espero que o início das revisões seja marcado pelos médicos. E aguardar os cinco anos para dizer um tchau definitivo à doença.

Até lá, continuarei trabalhando, agora com outro ritmo e muito mais disposição, mas ainda não estou como antes, sei disso.

Mas aquela fome continua.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Minha vida


Acordei, hoje, às 9h, com um sentimento muito estranho e uma disposição que não sentia há muitos anos: a certeza de que havia renascido.

Pode parecer ainda mais estranho, mas o sentimento ocorreu no momento em que, na noite anterior, passei pela última (33ª) sessão de radioterapia, uma alta desejada desde a primeira semana do tratamento contra o câncer na corda vocal, que foi a coisa mais assustadora e reveladora de minha vida.

Mais estranho, ainda, foi a disposição que tomou conta de mim durante a manhã e que ainda toma conta de meu corpo e alma neste momento em que escrevo.

Uma felicidade movida à energia, uma alegria imensa que me faz aguardar com paciência e resignação o relatório final do dr. Jonatahn Melo sobre o meu estado de saúde para ser encaminhado ao oncologista e cirurgião de cabeça e tórax Bartolomeu Melo, a quem caberá as revisões periódicas.

Estou tranquilo, muito feliz e surpreendido com o passar rápido das sessões de radioterapia. Difícil foi me despedir (e agradecer, claro) aos médicos, aos radiologistas, aos técnicos, enfermeiros, pessoal da limpeza e as atendentes do setor de Radioterapia do Real Hospital Português.

Todos estiveram a meu lado (e junto de pelo menos 160 pacientes diariamente). A eles, atribuo grande parte da recuperação e do combate ao meu câncer, pelas palavras trocadas, pelos abraços, apertos de mão e pela generosidade e profissionalismo com que me trataram e tratam os pacientes do RHP.

Acho até que trocarei a data de meu aniversário: passarei de 1º de abril para 1º de agosto (serei Áries e Leão) e, em 2013, espero festejar o primeiro ano do resto de minha vida.



terça-feira, 24 de julho de 2012

Contagem regressiva

Faltam apenas cinco sessões para o término da radioterapia, caso esteja tudo bem, o que espero com todas as minhas forças, rezas e esperanças.

Estranho: na reta final, me acostumo com a máscara para impedir os movimentos da cabeça, controlo a respiração e os batimentos cardíacos e não sinto mais aquela agonia das primeiras semanas.

Só fico preocupado, confesso, quando a porta não abre e não ouço aquele barulhinho salvador de que a radioterapia, enfim, chegou a mais um final.

Enquanto isso, desde sábado passado, sinto que a energia volta a meu corpo com uma força diferente, tenho caminhado com mais entusiasmo e ritmo e tenho aumentado as distâncias sem me cansar. O mesmo ocorre à noite, quando o sono volta a ser como antigamente, não está vindo mais acompanhado de cansaço nas pernas e ombros.

Não sei se tudo isso é fruto da vontade de encerrar mais um ciclo na minha vida, e aguardar os próximos passos para a cura definitiva do câncer, ou se de fato a radioterapia já avisou a meu corpo que o câncer já é mais aquele perigo todo.

Estou em contagem regressiva para o meu reencontro com a vida.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Alegria, alegria

Entro na fase final, faltam apenas seis sessões e saio da radioterapia com muita mais disposição quando fiz a primeira sessão. E três quilos mais gordo - eita fome desesperada e danada.

Impressionante como o organismo reage positivamente e como muda tudo, até humor, para melhor, e a maneira como encaro a vida.

Rezo a Deus para que tudo esteja certo, oraite, como dizem por aí, e que a última tomografia indique o fim da trajetória. Se não for assim, estarei na luta, pode acreditar.

Nada melhor que um dia após o outro para a gente se encontrar. E acordar com muita disposição ainda é uma das melhores sensações da vida.

Alegria, alegria

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Lição de vida

"Sorrir não mata. Viver não dói. Abraçar não arde. Beijar não fere. Rir não machuca".

"Você não tem motivos para não tentar ser feliz'..

O texto acima é de Clarice Lispector, a grande escritora que viveu durante a infância no Recife e que tem uma das obras mais intensas sobre o (RE) descobrimento do humano.

Lição de vida para copiar e colocar na carteira.

PS: O pensamento de Clarice Lispector foi "roubado" do twitter de Alexandra Torres, radialista e mulher de imensa fé

terça-feira, 17 de julho de 2012

Sem voz

O câncer na corda vocal tem um grande inconveniente para qual nem sempre estou disposto a ter paciência: a perda quase total da voz.

Como a radioterapia bombardeia o câncer diariamente, o local fica muito sensível a qualquer vibração e incomoda muito quando forço para tentar ser compreendido.

Não me acostumei ainda a falar com gestos, embora seja descendente de italianos, nem sei usar a linguagem dos sinais.

Falar, só agora me dou conta, é das melhores coisas da vida. Poder se expressar revelando seus sentimentos pela voz é diferente do ato de escrever. Por isso, admiro os atores, os cantores e os oradores.

Gosto de ouvir poesia lida em voz alta, não precisa ser declamada, assim como adoro Luciano Pavarotti e Plácido Domingo (que estará em Fortaleza para a inauguração de uma fábrica em agosto), além da minha cara Maria Callas cantando Verdi, Bellini ou Rossini.

Estou praticamente mudo porque me cansa dizer alguma coisa, mesmo sussurrada. Passei sábado e domingo em casa lendo, vendo filmes e televisão. Não abri a boca, a não ser para comer já que a fome continua a mesma.

O médico diz que após as 33 sessões de radioterapía, se tudo estiver bem, a voz voltará aos poucos, talvez mais grossa, provavelmente bem mais grave.

Até lá, estarei atento a tudo que ouço.

Afinal, compreendo o poder do silêncio dos monges trapistas e o bem que faz uma meditação. Mas estou contando os minutos para voltar a falar porque descobri que é muito bom você poder dizer o que pensa e como pensa.

Por isso, minhas saudades dos tempos da Rádio JC/CBN ao lado de Aldo Vilela e das participações em entrevistas convidado por Geraldo Freire na Rádio Jornal.

Definitivamente, não nasci para ficar calado.

Altos e baixos

Nem todos os dias foram feitos para o sucesso. Nem todas as sessões de radioterapia apresentam melhoras imediatas nos pacientes.

Há dias em que o abatimento parece tomar conta da gente, o desânimo aparece e a descrença com o tratamento nos atinge de uma maneira tão brutal que nem acreditamos que está a acontecer.

Mas continuamos a acreditar que o amor, o afeto e a alegria são as melhores e mais poderosas armas contra o câncer, seja ele de que tipo for. Só quem não tem a doença acredita no contrário.

Não falo de mim, jamais. Não posso me queixar do tratamento, da atenção e carinho que recebo diariamente do pessoal da radioterapia do Real Hospital Português nem da esperança que cada dia fica mais forte.

Escrevo sobre aquela família, pai e mãe, que chegou amparando o filho adolescente da maneira mais carinhosa e linda do mundo.

Hoje, os dois exibiam na face o estado de saúde do filho, que não desiste de lutar apesar de alguns dias estar mais abatido, como agora.

Me deu uma vontade danada de chegar junto aos dois e dizer baixinho: "Ânimo, ele precisa de vocês dois assim como nós, aqui, precisamos de vocês três e do sucesso de seu filho".

Não disse porque achei que interromperia aquela união de uma família na sala de espera da radioterapia: o filho encostado no peito da mãe, o pai abraçado com a mulher.

Neguei a desmanchar o quadro, mas fui surpreendido pelo imenso sorriso que a mãe me dirigia como se advinhasse meus pensamentos e o que escreveria.

A vida, como a doença, é feita de altos e baixos.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Vida nova

Aquela mãe que embalava o filho adolescente no colo enquanto era abraçada pelo marido na sala de espera da radioterapia do Hospital Real Português não é mais a mesma.

O rosto da jovem mãe está iluminado, o sorriso tomou conta de seus dias e a alegria passou a fazer parte também da vida daquele pai sempre presente, calado e discreto.

O motivo é o mesmo: o menino que chegou amparado pelos dois, que dificilmente conseguia se mover e caminhar por conta própria e que parecia sofrer muito, também não é mais o mesmo.

Ele já conversa, mexe com o celular na internet, sorri muito, caminha, apesar de uma certa dificuldade, e demonstra estupenda melhora com a radioterapia. Uma mudança em apenas duas semanas.

Por certo, resultado da força de ser jovem e do acerto da medicação, mas consequência do explícito amor dos pais e do carinho que é tratado por todos.

É como se uma vida nova tivesse se apossado daquele corpo jovem e moribundo e mexido com todos nós.